19.3.12

a tua pele despida

gelos moribundos
contorcem-se nas bermas do jardim
num processo artístico de anúncio de primavera
sem ruídos, cinzéis solares
expressam-se silenciosamente
nos contornos das pedras frias
ouvem-se gemidos gelados
nos derretimentos das figuras fabulosas
que voam da imaginação
e morrem-se devagar, sangrando águas
bebericadas pelos pombos, que já chegaram à cidade

num banco de jardim
no anúncio da primavera
o sol esculpe-me vagarosamente a alma
aquecendo-me os olhos
e deixando-me com um enorme desejo
da tua pele despida

18.3.12

o professor matemática

o professor de matemática
tinha sacos de algarismos em casa
que juntava desde pequeno
roubando-os das portas da vizinhança
e dos preços da frutaria da esquina
cuja menina
haveria de ser um dia
a sua eterna namorada
tinha-os das matrículas de automóveis
tinha-os dos prazos de validade
dos xaropes que tomava
tinha-os, surripiados, dos Km das estradas
estabelecendo a teoria das distâncias acabadas
o professor de matemática
vestia-se de algarismos coloridos
e tomava banhos em zeros subtraídos
que borbulhavam como sais
na sua banheira encarnada
tinha algarismos talhados
cortados
em fugas precipitadas
outros, já acamados
com idade avançada
lutavam por não morrer
nas estatísticas falhadas
o professor era estranho
no seu jaguar castanho
com matrícula apagada
usava gravata amarela
e um grande três na lapela
esse três, como dizia
a conta que Deus lhe fez
ao ensinar tabuada
o professor de matemática
era ele próprio, um número quase infinito
de histórias
de loucuras
de bravuras
de ternuras
de aulas cheias de aventuras
o professor existiu!
durante a construção do poema

NOTA: Desafio lançado pelo Clube de Matemática ao qual respondi com um gosto muito especial atendendo à minha formação mais virada para as ciências do que para as letras. Neste exercício mensal, pretendo, de alguma forma, ''casar'' a Matemática com a Poesia... vamos ver no que dá...