19.7.11

flores impossíveis




existem flores impossíveis
que são obviamente oferecidas
em amores, também impossíveis
girassóis ou malmequeres
rosas, tulipas ou margaridas
convenientemente amarelas
significativamente desesperadas
desesperançadas
apaixonadas
mas recusadas
permanecendo em descanso eterno
numa jarra desequilibrada
duma mesa negra, milimetricamente centrada
numa sala que permanece vazia

as flores impossíveis
às vezes chamadas de platónicas
(vá lá saber-se porquê)
giram tontas em torno do sol
amaldiçoando Diotima de Mantinea
e esperando pelo dia
que possam fenecer em paz
pétala após pétala
tombando em amarelo cada vez mais desmaiado

os amores impossíveis
desafortunados
morrem também aos bocados

11.7.11

vento


o vento parou
deixando de falar nos teus cabelos
e no jardim, acumuladas às dezenas
folhas de poemas
repousam sem poder voar
desejos teus pousados nos meus
proibidos de se abraçar

à beira rio, o vento parou
e o teu perfume encheu o ar
suspenso na inexistência de uma evaporação

parada, perdurou por tempo pequeno, a minha mão
fazendo amor na tua
com dedos entrelaçados
apertados
como se o mundo estivesse a um segundo de acabar
como se a ponte branca fosse desabar
no teu sorriso tão difícil de abandonar

o vento parou
e as últimas palavras que disseste
junto ao rio que corria devagar
adormeceram comigo
nas margens do meu ouvido
esperando por maré
que as possa acordar

3.7.11

emprestas-me então um sorriso?


- emprestas-me então um sorriso?
por tempo ilimitado?
prometo que não estrago
devolvo todo, inteiro
quando este nevoeiro
se cansar de ter-me a mim
- estranho pedido o teu
porque me pedes tu isso?
acabo de acordar
dum pesadelo lançado
por um deus que é menor
que em vez de um sorriso
deixou-me nos lábios um grito
e nos olhos traços negros
que copiados ou ditos
por certo farão chorar
- preciso só dum sorriso
para enfeitar minha face
carregada por rugas d’ alma
que deixou de ter as cócegas
que me largavam nos olhos
o brilho do meu sentir
emprestas-me então um sorriso?
daqueles que deixas fugir
quando te vejo sonhar?
- vou tentar adormecer
viajar nas utopias
que quando estou acordado
as mato, por já não as querer
flores de perfume falso
luas que falam comigo
corpos a envelhecer
princesas que estão sem abrigo
amores por acontecer
lá vou encontrar um sorriso
lindo mas esquecido
por um desgosto qualquer
e em vez de te emprestar
trago-o preso nos dedos
porque to quero oferecer

utopias


uma após outra
colecciono utopias
selos, moedas, porta-chaves
e pacotes de açúcar
de onde pacientemente retiro
o conteúdo
deixando utopias vazias
imagens de cidades, peixes, caravelas
sonhos, desejos e amores
impossíveis
embalagens desprovidas
de vontades de adoçar

estou sentado


escolhi uma música triste
e sentei-me
pus em mim uma roupa triste, negra
e sentei-me
deixei entrar as minhas memórias de ti
e sentei-me
esperei, cinzento
por um milagre
que mudasse a cor do meu dia
e sentado
a alma foi escurecendo aos poucos
pela música triste que escolhi
pela roupa triste que vesti
pelas memórias de ti
que descuidadamente
deixei entrar dentro de mim
a alma escurecendo aos poucos
engoliu o teu sorriso
que teimava em espreitar
nos meus olhos escuros
eles, sentados
esperavam cansados pelos teus
olhos claros
esperançados
em mudar a cor sombria
sentada no meu dia

2.7.11

namoro



- porque não dormes?

- porque namoro a lua
e talvez o sono se ausente
sentindo a falta tua
- descansa, eu estou aqui
e mesmo que não me vejas
fui eu que deixei a lua
pousada à tua janela
com um sorriso despido
em iluminada cratera
- em luar, tenho os teus braços
que me envolvem agora
dois desabotoados astros
enchem os meus sentidos
em exercícios perdidos
que entontecem desejos
são os teus seios sonhados
que me chegam em bocejos
vontades de muitos beijos
vem lua, vem pousa em mim
deixa-te transbordar
como se estivesses bem cheia
- descansa, que chego já
o sol está quase a acordar
entrego-lhe a chave do céu
apanho uma curta boleia
e deslizo no seu despertar